1
O parque estava bonito naquele dia. Os pássaros cantavam intensamente e o mundo parecia ter sido tingido de um violeta tão bonito que fazia Touya sorrir. As árvores e folhas dançavam com o vento, o único que causava algum som mais intenso naquela harmonia toda. Podia ficar aqui para sempre, pensou, e talvez pudesse mesmo.
O som engraçado de uma bola de plástico quicando ecoou alto e em sua direção, e não demorou em o objeto aparecer em seu campo de visão. Uma criança corria atrás dele e os cachos dourados estavam realmente bonitos e brilhantes naquele dia violeta.
- Pode me devolver a minha bola? – a menina perguntou com um sorriso gracioso no rosto.
- Claro. – sussurrou, sorrindo também. Ele não notara que pegou a bola do chão.
Entregou a objeto de plástico para a menina e ela aumentou o sorriso, em agradecimento. Ficaram em silêncio por alguns minutos, ambos fitando-se com certa curiosidade nos olhos, até que o badalar de sinos de uma igreja muito distante ecoassem. A criança virou sua cabeça lentamente em direção ao som e Touya pôde ver uma cicatriz em sua nuca, que descia para suas costas.
- Por quem os sinos dobram? – ela lhe perguntou, debochada.
Touya riu um pouco, balançando a cabeça.
- Nunca pergunte por quem os sinos dobram. Eles sempre dobrarão por ti.
A menina loira riu. Está certo, sussurrou, enquanto recuperava o fôlego. Não era uma coisa engraçada, na verdade. Era triste de filosófico, mas Touya não pensou muito nisso. Estava muito entretido em observar os cachos louros da garota e queria muito afagá-los carinhosamente, não porque gostava de crianças, e sim porque eles pareciam ter sido feitos para isso.
- Ah, mas é uma pena mesmo. – ela disse, após recuperar-se da crise de risos – Está anoitecendo.
Touya levantou os olhos negros para o alto, percebendo que o ambiente violeta estava sendo tingido de roxo escuro.
- Sim, está mesmo. Precisa ir para casa?
A menina balançou a cabeça em negativa.
- É que você vai ir embora.
- Eu vou, é?
- Sim. – e desviou seus olhos para o sol que se punha. Algo mudou em seu rosto.
- E para onde eu vou?
Ela virou-se, a cicatriz pareceu brilhar por um momento e então suas vestes encharcaram-se de sangue. Muito sangue.
- Para o túmulo. Comigo.
Numa velocidade inumana, levantou sua mão para agarrar o rosto de Touya, que se afastou instintivamente. Mas não o suficiente...
2
Touya Amamiya abriu os olhos tão de repente que a pessoa ao seu lado deu um pulo, assustada. Segurou firme nos braços do assento e respirou fundo, suando frio. Ultimamente andava sonhando muito com a cidade monocromática – nome ao qual apelidou o local de seus pesadelos mais recentes – e sonhos repetitivos nunca foram muito bons, afinal. Passou a mão pelos cabelos louros, enquanto lançava um sorriso simpático às poucas pessoas que lhe encaravam com olhos curiosos.
E enfim sentiu a dor por dormir em local tão incomodo. Como uma vingança, o jovem sentiu o pescoço e as costas doerem intensamente e ficarem duro. Maravilha, ele concluiu, cínico, pelo menos eu já estou no médico.
Afastou esse pensamento, como se ele fosse amaldiçoado. E talvez fosse, pois o único jeito de ser atendido naquele local era se ficasse incrivelmente louco. Um gosto amargo de lembranças infelizes veio à sua boca e o jovem simplesmente voltou a afundar o corpo naquele banco desconfortável. Como ele odiava aquele lugar.
A pessoa ao seu lado – uma mulher de meia-idade e de feições tristes – levantou-se quando ele pareceu acalmar e sentou-se do outro lado da sala de espera. Touya não se ofendeu; qualquer um que tivesse uma reação estranha naquele lugar era rápida e obviamente tachado como louco. Pelo menos ela foi educada e esperou até o meu “surto psicótico” parar, pensou, rindo da própria piada ao mesmo tempo em que usava o assento agora livre como descanso para as pernas e ligava o Ipod.
3
A voz de Serj Tankian invadiu sua mente e diante daqueles gritos e guitarras ferozes, pôde enfim relaxar por alguns minutos, somente. Logo uma mão forte bateu em suas pernas, avisando-o para sentar-se direito e ter o mínimo de respeito para com o lugar – e assim ele o fez. Um homem de cabelos loiros ligeiramente longos sentou-se ao seu lado com um sorriso cansado no rosto. A mulher que antes descansava ali o encarou com grande interesse, provavelmente amaldiçoando-se por ter saído dali.
- Já vamos poder vê-la, Touya. – ele sussurrou, sua voz revelando certa ansiedade adolescente e emoção barata.
- Yay. – o mais novo respondeu, revirando os olhos – Vamos ver se dessa vez ela consegue me atacar direito e me matar.
Olhos azuis muito frios o encararam com frieza e ele encolheu-se, arrependido. Certo, talvez falar desse jeito sobre a pessoa que estavam visitando talvez fosse uma má idéia. Para consertar o erro, Touya mudou de assunto rapidamente:
- Então, Johan e Catherine virão?
Um suspiro do mais velho denunciou que, não, eles não viriam. Touya não estava realmente surpreso porque os dois tinham uma vida. Isso causou certa depressão no jovem; droga, ele precisava arranjar algo para fazer – algo que não fosse só escutar música e se agarrar com garotos ligeiramente mais velhos atrás das quadras de tênis.
“Smells Like Teen Spirits” soou alto demais em seus ouvidos, fazendo-o mergulhar novamente nas músicas depressivas e intensas que rodeavam a sua vida. Deu um sorriso, enquanto apoiava o seu rosto no ombro do homem mais velho e esfregava sua cabeça ali, como um gatinho pedindo por carinho. O outro simplesmente enroscou seus dedos no cabelo do mais novo e afagou-os.
Às vezes Touya queria que seu pai, Joshua Amamiya, fosse seu namorado.
4
A visita começou só meia hora depois. Ela não queria acordar, explicou a enfermeira, rindo. Bem, Touya não queria sair de sua cama, mas ele venceu a preguiça, por que ela não podia fazer o mesmo? Talvez os remédios estejam cada vez mais fortes, brincou, muito embora não riu.
O Hospital Psiquiátrico de Geist era um local afastado da cidade de Geist e só era acessível de carro. A Estrada Rosen fora construída por volta de 1800 apenas para se chegar ao local. Quando eram menores, Touya e os irmãos acreditavam que a estrada os levaria para um precipício e era até engraçado, mas se fossem analisar direito, a comparação não estava errada: ninguém que era internado naquele lugar – por melhor que fossem os tratamentos – ninguém saía dali vivo. Em cidades maiores, era considerado a porta para a morte para os loucos; onde somente os sem esperança iam. De fora, parecia uma mansão de algum empresário extravagante ou rock star que cultuava o demônio; por dentro, era composto de salas e corredores incrivelmente brancos que cheiravam a remédios tarja preta e loucura intensa. As luzes fluorescentes ressaltavam ainda mais os pesadelos das pessoas.
Principalmente de Touya.
Ele conhecia muito bem aquele hospital. Tão bem quanto gostaria. Desde os cinco anos o pai o levava ali todas as manhãs de sábado e era incrivelmente cruel como a sensação de medo não parecia diminuir. Principalmente porque a pessoa internada tinha o mesmo quarto desde que se instalou naquele lugar e até mesmo as enfermeiras diziam que o quarto do último andar e no final do corredor parecia amaldiçoado. Quando era menor, o corredor parecia incrivelmente maior do que aparentava. Às vezes ele desejava que isso fosse verdade porque então não precisaria entrar ali, mas lamentavelmente isso nunca iria acontecer.
A enfermeira Marie – uma francesa que se casou com o diretor do hospital dois anos antes de Touya conhecer o lugar – era uma das únicas pessoas que ele gostava. Ela era velha, mas graciosa e tinha uma bondade sem igual e sempre gostou de conversar com o Amamiya enquanto ele comia milhares de doces na cantina. Desde sempre ela cuidou da pessoa que eles visitavam naquele momento, a próprio pedido de seu marido, que precisava garantir que a única razão de seu maior contribuinte existir fosse muito bem tratada.
Marie deu um sorriso, dizendo alguma coisa sobre como Touya havia crescido, mas Marylin Manson não deixava que ele houvisse. Mesmo assim, ele sorriu. E então ela abriu a porta com cuidado e um rangido ecoou.
O quarto era incrivelmente vazio, se não fosse por uma cama e uma mesa de chá bem no meio da sala. Sentada numa das cadeiras, encarando um vaso de flores simples e delicado de maneira hipnótica, uma mulher estava. E ela era tão pálida, junto de seus cabelos loiros e vestido branco, na luz fraca da manhã nublada que suas veias eram tão visíveis que chegavam a assustar.
Ela levantou os olhos escuros, como se percebendo a presença dos três. O cabelo que cobria grande parte do rosto a fazia parecer um verdadeiro fantasma. Seu olhar pousou intensamente em cada um de seus visitantes e parou justamente em Touya, e uma raiva contida por medicamentos surgiu naquela negridão.
Os olhares negros se encontraram e a raiva e o medo se chocaram como se fossem dois gladiadores ferozes lutando para sobreviver. Nesse instante, a música pesada que Touya escutava acabou e um silêncio longo demais pairou em seus ouvidos.
Como Touya odiava visitar a mãe.
5
Na maior parte da visita, Touya Amamiya preferiu permanecer apoiado na janela, escutando música, e observando a interação entre seus pais. Mesmo depois de muitos anos e com o empecilho da loucura, ambos pareciam se amar o suficiente para continuar naquele relacionamento. Mischa Hasse-Amamiya até parecia um pouquinho sã ao lado do marido!
Isso fez com que ele pensasse um pouco nos dois. Eles deviam estar sofrendo por doze anos, tendo de se ver apenas em finais de semana e por poucas horas. Touya nem saberia dizer há quanto tempo seu pai não fazia sexo – não que ele pensasse muito nisso, mas seu pai era um homem muito atraente e já devia ter tido a chance de se deitar com alguma secretária. Mas se pensasse bem, se seu pai abdicou de sua carreira (um médico em ascensão, quando conheceu a mulher, que era a filha de um empresário rico e estava estudando para assumir seu lugar no controle da empresa da sua família. No fim os dois trocaram de papéis, de certo modo: Mischa tornou-se amiga dos medicamentos enquanto seu pai se divertia atrás de uma mesa de escritório, para não deixar a companhia morrer, como seu sogro bem disse), era bem possível que tenha abdicado de relações sexuais também.
Como alguém consegue fazer isso?, perguntou-se levemente desesperado. Não que ele tivesse dormido com alguém, mas a simples idéia de não fazê-lo o assustava bastante também. Até mesmo velhinhos simpáticos tiravam o atraso quanto a isso! Era natural, não era?
Joshua passou as mãos pelos cabelos de Mischa e ela sorriu, bobamente. Havia certa tristeza em ambos – o tempo estava acabando – além de velhice. Sim, eles já eram velhos, ainda que muito atraentes.
Touya parou um pouco e levantou as sobrancelhas. Certo, pelo menos seu pai era atraente. Quanto a sua mãe... Bem, ela devia ser, se Joshua gostava dela. Balançou a cabeça, derrotado: para se analisar uma mulher como bonita ou não deveria gostar de mulheres. E isso era uma coisa que não ocorria com o garoto. Nem ocorreria.
O pai beijou a mãe nos lábios, era hora de ir. O homem mal se levantou e seu filho já estava ali, ao seu lado, puxando a manga de sua camisa, preferindo não encarar a mulher enlouquecida. Um olhar dopado e odioso já basta, por favor. Joshua também não o culpava, sabia que Touya não gostava nem um pouco de estar ali.
- Já vamos. – ele sussurrou, sério. Os sorrisos mais doces eram sempre de Mischa, afinal.
Não demorou muito para que Marie olhasse seu relógio e visse que o horário já havia se excedido em alguns poucos minutos. Com um sorriso, então, ela lhes avisou que a visita havia terminado e que a manhã de sábado virara tarde. Ótimo jeito de se aproveitar o dia, como sempre. Ela abriu a porta – por questão de segurança as portas sempre se mantinham fechadas, mesmo se o paciente não estiver ali – e Touya praticamente correu até ela, muito embora não foi rápido o bastante.
- Touya, não vai falar nada à sua mãe? – Mischa perguntou, de repente, como se estivesse lúcida.
Um silêncio dramático surgiu naquele momento – o número de vezes em que eles ficaram quietos passou pela cabeça dele e o deixou curioso – e as outras duas pessoas no quarto o encararam, aumentando a tensão. Touya encarou o pai dele e seus olhos diziam que sim, ele devia falar com ela; mas Marie sussurrava pelo olhar que meu deus, criança, nem ouse fazer isso. Você sabe exatamente o porquê de ela estar aqui. Você lembra. E ele mesmo sabia que ele devia simplesmente se afastar e ouvi-la gritando, no entanto sua boca foi mais rápida (e burra).
- Não.
Mischa riu, do nada. Riu e se levantou da cadeira, andando pelo local, um pouco afetada. A risada era seca, irritada e tremendamente sem sentido. De algum modo, lembrava a menininha do sonho. A lembrança de aquela mãozinha vindo agarrá-lo e feri-lo deixou-o assustado. Demais.
- Você. – e apontou para ele, aproximando-se mais da porta (e Joshua e Marie se aproximaram dela, para impedi-la de fazer alguma besteira) e sentando-se na mesa. Como uma pessoa normal e sã – Não vai falar nada para a sua mãe? A sua mãe?
Antes que ele pudesse sequer lamentar o que disse, um vaso – o vaso delicado no centro da mesa – voou contra ele ou contra a porta. Instintivamente Touya se afastou para o lado de fora do quarto, para aquele corredor medonho e que devia não ter fim, e sentiu cacos de vidro passando por seu rosto e uma ardência.
Ah, agora a visita está completa, ele pensou, antes de cair no chão, fora da sala.
Então vieram os gritos. Gritos insanos, gritos de pare, gritos de segure essa mulher, meu deus. Touya respirou fundo, tocando seu rosto para limpar um pouco o sangue que escorria.
Sim, a visita estava completa agora.
6
A ida para casa foi silenciosa. A bochecha direita de Touya coçava, mas ele sabia que se ele tentasse apaziguar aquela sensação incômoda. O pai limitava-se a observar a estrada e pensar o que levaria a uma mãe atacar o próprio filho, de novo.
- Pai. – chamou, de repente, numa tentativa de quebrar aquele silêncio – Posso ligar o rádio?
Joshua nem pareceu ouvir. Cinco minutos depois, um Touya sem resposta ligou o Ipod no volume máximo para espantar aquela sensação estranha que a visita deixou.
Não funcionou.
7
A casa dos Amamiya era um mausoléu antigo construído pelo primeiro diretor do Hospital Psiquiátrico de Geist. Lamentavelmente uma doença o impediu de ver a mansão concluída e ela foi fechada por muito tempo até que o pai de Touya decidisse concluí-la, pois era a residência mais próxima de onde sua mulher estava internada – tanto que sua rua era a que ligava a estrada Rosen com a cidadezinha alemã.
Era incrível a devoção de seu pai por Mischa, mas isso nunca interessou muito Touya e naquele momento era a única coisa em que ele não gostaria de pensar. Como em todas as outras vezes em que teve o desagradável momento com a mãe – se machucando ou não – ele apenas iria ficar distante, preso em seu quarto, ouvindo música e lendo livros, como um ritual de autopunição depressivo.
Assim que o pai abriu a porta, ele esgueirou-se para dentro como um gato fujão e nem sequer cumprimentou o irmão – um jovem de cabelos loiros curtos e bem-comportados, de óculos fundo de garrafa escondendo os seus olhos claros e de rosto mais ossudo que os de Touya – que assistia a reportagem da cidade após dar uma pausa em seu trabalho. Estava na escada quando ouviu:
...Misteriosos assassinatos andam ocorrendo por toda a cidade e a polícia está completamente perdida. As vítimas diferem em personalidade, aparência e idades, impedindo de descobrir o seu modus operandi. Além disso, a maneira como as vítimas foram mortas também difere a não ser em um único ponto: elas sempre são extravagantes, como se...
...E foi tudo o que ele ouviu, antes de o pai e o irmão notarem sua curiosidade em tal assunto macabro e mudarem de canal, como se fosse mais uma banalidade na tevê.
Alguma coisa, porém, assustou Touya. Alguma coisa dentro dele pareceu acordar depois de um período enorme dormindo. E essa coisa remexeu-se como um animal acuado diante de um carnívoro perigoso; como se algo ruim estivesse se aproximando; como se o bicho-papão fosse real e estivesse preparado para caçá-lo; como se... Como se...
...Como se ele se encaixasse no perfil-sem-perfil do assassino e fosse se tornar sua próxima vítima.
E Touya temeu.
Kapitel Eins Ende
