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1
Pousou as duas mãos na cabeça, afundando-a na mesa, como se estivesse se protegendo de uma bomba. Mas se havia algum explosivo, ele estaria dentro de sua mente, e já havia sido detonado. A dor era insuportável, fazendo tudo ao seu redor girar. Ou era o remédio que tomara mais cedo.
As risadas colegiais vinham agudas ao seu ouvido, piorando a situação. Mordeu o lábio inferior, sem saber se para abafar um gemido ou um grito que mandaria todos aquelas pessoes para o inferno – muito embora sabia que isso apenas o levaria à sala do diretor, estando com problemas ou não. A voz do professor explicando sobre a Revolução Russa ecoou distante, abafada. Pensou então se não estaria tendo uma overdose, mas logo descartou tal hipótese: se isso estivesse ocorrendo, não achava que estaria consciente.
Concentrou-se apenas no relógio. Um som não muito agradável, mas muito melhor que explicações de História e garotas que riam incontrolavelmente – odiava essas garotas, odiava garotas. De repente, tudo ficou muito silencioso, com exceção do tic tac metódico, que agora parecia funcionar melhor que os remédios.
Murmurou a si mesmo para não pensar em mais nada e apenas respirar. Não sentia as outras partes do corpo, e quando mexeu seus dedos, eles tocaram uma textura amadeirada. Não se lembrava de ter tirado as mãos da cabeça. Não se lembrava de nada, aliás.
Uma mão pousou em suas costas e então ele notou que não foi ele que silenciou a classe, afastando-os de seus pensamentos, e sim que a classe o fez quando notou algo de errado com ele.
Não pôde nem ser cínico: alguma coisa pareceu se chocar contra o seu crânio de uma maneira tão rápida que ele nem conseguiu gritar. Tentou levar as mãos à cabeça, entretanto elas caíram inertes ao seu lado – sentiu os nós de seus dedos doerem ao baterem violentamente na mesa de madeira.
Não era uma overdose. Era o cansaço tomando conta de seu corpo, mais uma vez.
Enfim houve silêncio.
2
O cheiro adocicado do chá o fez recobrar a consciência, aos poucos. Antes mesmo de abrir os olhos, já sabia onde estava. Sua primeira visão ao acordar foi a porta da enfermaria, fechada e branca como sempre. Touya deixou um suspiro escapar de seus lábios e virou-se para o outro lado, deparando-se com a janela e com os poucos raios solares que ousavam atravessá-la.
Lembrou então das advertências do pai, dizendo que a situação só viria a piorar se ele freqüentasse as aulas; que ele não tinha condição física e mental para continuar estudando e que ele merecia de umas férias – e se aquilo tudo fosse estresse? Mordeu o lábio inferior, lembrando que batera o pé, dizendo que já abrira mão de diversas coisas e, por isso, pelo menos a escola ele manteria, mesmo se não fosse um grande fã dos colegas de classe ou professores.
Bufou, um pouco irritado com a situação que ocorria naquele momento. Era a mesma que seu pai descrevera, noite passada. A mesma que ele disse que era um exagero, que revirou os olhos e subiu para o quarto, sonhar com mais pesadelos.
Vou voltar para a classe mesmo assim, disse a si mesmo, teimoso como era. Ele só precisava esperar a enfermeira voltar e pedir para assinar um documento. Voltaria para a classe, ignoraria as falsas preocupações, as risadinhas baixas, os olhares amedrontados, e sairia dali apenas quando conseguisse o último sinal tocasse.
Passou então a alisar uma parte do lençol, como sempre fazia quando estava sem sono ou não queria levantar de imediato. O cheiro adocicado do chá, o mesmo que o acordou, o fez fechar os olhos, minutos depois.
Inconscientemente, desejou que não tivesse nenhum pesadelo.
3
Acordou pouco antes de suas aulas acabaram, mas isso não foi um verdadeiro problema. Conseguiu chegar à sala e pedir as anotações para uma de suas colegas que, por mais que tivesse um namorado em outra turma, era completamente encantada por Touya. De alguma forma, ela gostava de seu jeito calado, misterioso e, agora, doentio. Talvez fosse por isso que era tão fácil e divertido tirar proveito dela.
Também não foi difícil pedir para que usasse a sala por mais um tempo. Os professores entendiam seus problemas e estariam em reunião naquele dia, então ele poderia usar a sala de aula para passar as anotações em seus cadernos. Mesmo assim, a enfermeira ficaria com ele, apenas por precaução.
Enquanto ela lia uma revista de medicina, Touya – que escrevia razoavelmente rápido – possuía um sorriso no rosto. Não tivera nenhum pesadelo enquanto dormia, e isso era muito bom. Imaginava-se contando ao pai que não estava enlouquecendo, assim como diria à irmã que o incidente no hospício não fora o problema, e ao irmão que o que ocorrera com a mãe fora um caso isolado de loucura familiar, sem que isso afetasse seus filhos e etc.
Ficaria livre dos psicólogos e dos remédios, e poderia voltar a praticar tênis também. Quem sabe, conciliar o piano com suas horas de leitura. Era como um renascimento, onde ele gostaria de fazer inúmeras coisas e nada ao mesmo tempo. O tipo de renascimento que, em dois dias de rotina, seria massacrado pela realidade de que nada iria mudar, porque ele próprio não mudara.
O som de um bipe cortou os pensamentos dele. Levantou os olhos para a enfermeira afobada, que demorou em localizar o aparelho. Quando o fez observou atentamente o que ele dizia.
- Querido, é minha vez de participar da reunião, o que quer dizer que você não tem mais tempo. – ela disse, sorrindo-lhe. Touya apenas retribuiu.
- Certo, vou arrumar minhas coisas. Obrigado por ficar aqui comigo.
A mulher colocou uma mecha de cabelo por detrás de sua orelha e deu um sorriso que respondia por qualquer palavra. Dizia que não fora problema nenhum. Esperou que Touya começasse a fechar seus livros para sair.
O som dos passos dela desapareceu no corredor e no final do dia. O jovem estava alegre, a melhor expressão em seu rosto desde que a onda de pesadelos começara, e por isso não notou os passos apressados vindo em sua direção. E quando os notou, fora tarde demais; conseguira apenas virar-se para encarar a pessoa.
Ou a coisa, pois, à sua frente, um homem agonizante, derramando lágrimas escuras, gritava, enquanto adentrava na sala. Possuía os passos tortos, mas rápidos, e havia algo de familiar naquela expressão aterrorizante. As palavras que saíam de sua boca eram incoerentes, e Touya tinha uma ligeira impressão da razão para isso. Um arrepio percorreu sua espinha quando notou que ele vinha em sua direção.
Mas é claro que ele vem na sua direção, seu idiota, ouviu a si mesmo reclamar, Você é a droga do único ser vivo aqui.
Certo de que a coisa o seguiria, Touya afastou-se em direção à lousa, os pés raspando no chão, a mochila semi-arrumada jogada no chão. Seu plano era simples: ter vários obstáculos entre o ser e ele, para que pudesse fugir mais rápido. Entretanto, o monstro não foi até ele. Pelo contrário, sentou-se de uma maneira estranha em cima de sua carteira – meio contorcido, impossível de se fazer, a menos que não tivesse ossos –, e lá ficou, em silêncio.
Minutos que pareciam horas se passaram e Touya tinha a certeza de que ele viria atrás dele. Senão, qual seria seu propósito? E então caiu em si: não importava a droga do propósito, desde que ele saísse de lá a salvo. Se a criatura queria fazer ioga na sua carteira, o problema era dela, não dele. Ainda assim, quando começou a se mexer, foi de maneira cautelosa, entre as carteiras, como era o seu plano anterior.
O arrastar de seus pés estava se tornando inconfortável até mesmo para ele, mas, quando chegou à porta, saiu e fechou a porta, sentiu que suas pernas foram libertadas de correntes e que enfim ele poderia voltar para casa, o mais rápido possível.
Mas mal escapara de um monstro, fora atacado por outro.
Uma mão forte agarrou seu cabelo e o empurrou contra a parede mais próxima. O ataque-surpresa o fez cortar interior da boca com os dentes, fazendo com que sua saliva se misturasse ao seu próprio gosto férreo.
Uma mão, que aparentava ser humana, tapou seus olhos por um momento, puxando a sua cabeça levemente para cima. A outra continuava a agarrar seus cabelos, como se tentasse descolar seu couro cabeludo. O silêncio se alastrou novamente pelo corredor da escola, exceto pela respiração acelerada do jovem cativo, e por um som que vinha de dentro da sala.
Um pensamento louco passou pela mente de Touya: era impressão sua, ou o monstro estava chorando?
Sua linha de pensamento foi cortada mais uma vez quando um corpo, mais forte e mais desenvolvido, encostou-se ao seu e a mão que lhe tapava os olhos tratou de descer por seu rosto, tórax, barriga, e parar próximo ao seu cinto. Engoliu em seco, e ouviu uma risada doce, mas sádica, ecoar perto de seu ouvido.
A mão em seus cabelos empurrou seu rosto ainda mais contra a parede, e um beijo lhe foi depositado em seu uniforme amassado, antes de a boca seguir para seu pescoço. Roçou a pele com suavidade, ao mesmo tempo em que os dedos próximos ao cinto conheciam o tecido de sua calça, modelando seu membro por cima desta.
Touya deixou um gemido sôfrego escapar de seus lábios, e em resposta recebeu o direito de ouvir a voz de seu captor:
- Alles Gute zum Geburtstag¹. – e uma risada baixa, excitada e cínica – Espero te ver em breve, Touya.
Seu nome foi dito com um sotaque francês carregado, distraindo-o o suficiente para que não notasse que a mão em seu cabelo escorregasse para seus olhos e empurrasse seu rosto para o lado. Pensou em protestar, mas a boca do homem que o mantinha naquela posição cobriu a sua.
O beijo foi calmo, breve e lento. A mão em suas calças continuava a se movimentar, excitando-o aos poucos e de uma maneira que ninguém nunca o fizera. Quando se entregara totalmente ao homem que o assediava – e, verdade seja dita, não demorou muito – notou que estava sozinho no corredor.
Virou-se, olhou ao redor e por um momento acreditou que aquilo não havia passado de um sonho. Deixou-se escorregar até o chão e passou as mãos pelos cabelos. Talvez não tivesse parado de sonhar. Talvez o enfoque dos sonhos tenha se mudado de pesadelos para sonhos eróticos – e ele não estava reclamando.
Respirou fundo, sentiu um cheiro de queimado e assimilou quase que imediatamente com o cheiro de pele queimada. E, de alguma forma, Touya Amamiya sabia que era a sua.
4
Abriu os olhos de repente, o frio assolando todas as partes do corpo. Sabia onde estava – a enfermaria, nunca havia saído dali – e não gostava disso. Os pesadelos não haviam terminado e tudo o que passara ali fora apenas um sonho. Lembrou-se do homem que o beijara, que o tocara, e virou-se para encarar o teto, meio emburrado. Bem, aquela parte do sonho podia ser verdade, só para variar.
Mas o mundo não podia ser justo ou divertido para com ele. Tinha de ser irônico, frio, e fazer com que homens franceses que sabiam como dominá-lo não fossem mais que partes de um pesadelo.
Cobriu a mão com os olhos, quase da mesma maneira que o sujeito fizera. Não era a mesma coisa – temperatura diferente, intenção diferente. Deu uma risada seca, desanimada. Pelo menos a vida era injusta com todo mundo.
O som de uma mensagem recebida – e Touya sabia que era isso porque era o som que o seu celular fazia – ecoou pela enfermaria e chamou sua atenção. Percebeu então que sua mochila marrom surrada estava ao lado da escrivaninha da enfermeira. Concluiu que o momento em que ela saíra, quando acordara anteriormente, fora para recolher seu material.
Deu um suspiro cansado e tratou de levantar.
Antes que alguém aparecesse, saiu.
5
A mensagem de celular vinha de um amigo de Touya, que jogava tênis com ele no mesmo clube, em uma cidade vizinha. Seu nome era Aires e ele fora uma das primeiras pessoas que o jovem conheceu quando decidiu praticar esse esporte.
O torpedo era nada mais, nada menos que: Ligue para mim, em caixas altas, como se fosse uma emergência. Touya preferiu fazê-lo assim que se afastasse um quarteirão da escola. Foi atendido quase imediatamente.
- Finalmente. – a voz soou, um pouco cansada. Touya deixou escapar um sorriso.
- Desculpe, estava ocupado.
- Fazendo o quê?
- Desmaiando na sala de aula.
Um silêncio meio desconfortável passou por eles, e fez o Amamiya rir.
- Enfim. – Aires recomeçou – Estou em Geist.
- Fazendo o quê? – e seus olhos brilharam, esperando pela resposta.
- Hã... – o amigo pareceu hesitar por um momento – Então, minha namorada me mandou acompanhá-la para ela comprar um presente. E, segundo ela, o que ela quer só tem aqui em Geist. Mas depois de termos uma discussão sobre eu entrar ou não numa loja de sapatos femininos, ela me mandou ir te visitar.
Touya deu risada. Ele não parecia muito desolado.
- Onde você está?
- Na praça próxima à rua principal.
- Certo. Quer ir há algum lugar, depois de nos encontrarmos?
Pôde sentir Aires dar um sorriso malicioso.
- Eu só quero que você me distraia.
Touya sabia muito bem que tipo de distração ele queria.
6
Os lábios de Aires tocaram seu pescoço de maneira tímida e carinhosa. Touya virou seu rosto para o lado, entregando ao outro mais de sua pele, esperando por mais beijos. E quando eles vieram, deslizou suas mãos pelas costas do outro num abraço íntimo, puxando Aires mais para si. Ele correspondeu procurando seus lábios e deslizando sua língua para dentro de sua boca, num ósculo lento e faminto.
O parque ficava sim próximo à rua principal, mas normalmente era utilizado como ponto de encontro entre adolescentes. Como era ainda horário de aula, estava praticamente vazio, com exceção daqueles que matavam as aulas. Touya não costumava ir lá muitas vezes, porque poderia encontrar conhecidos de seu pai, ou seus mesmo, e ter boatos ao seu redor era uma das coisas que preferia evitar. Entretanto, a visita de Aires era boa demais para se deixar passar, e ele precisava aproveitá-la de algum modo.
Separaram-se por um momento, antes de Touya voltar a beijá-lo. Aires correspondeu por alguns segundos, antes de quebrar a iniciativa do amigo.
- Você está bem afobado hoje, hein?
- Coloque-se em meu lugar, por um momento. – Touya respondeu, as mãos subindo e tocando os cabelos de Aires – Agora cale a boca.
- Tem certeza de que não quer conversar um pouco?
- Se seu tom de preocupação aumentar mais um pouco – e tocou os lábios dele com os seus, por um breve momento –, acho que vou começar a te chamar de pai.
Ele deu uma risada mais alta, mais despreocupada. Afastou-se um pouco de Touya – que o encarou com um leve desprezo por ter feito isso – e então olhou para os lados. Perto deles, um banco de pedra jazia solitário. Fez um sinal com a cabeça, e tratou de andar, sem se preocupar se o outro o seguiria.
Mas os dois sabiam que Touya o seguiria. Bufou, revirando os olhos. Ficar com amigos normalmente dava nisso – eles sempre paravam de fazer coisas interessantes para saber como sua vida estava.
Caminhou em sua direção, analisando as costas do amigo que, vez ou outro, virava-se para ele e sorria.
Aires tinha quase vinte anos e os olhos eram sempre cheios de vida. Possuía cabelos curtos e grossos, e um sorriso muito branco. Seu nariz era um pouco mais avantajado que o normal, mas que combinava com seu rosto quadrado, e ele era uma pessoa naturalmente simples e divertida. Talvez fosse por isso mesmo que ele atraísse Touya. Aires era simples, bonito e divertido. Não era o tipo de pessoa que o mais novo estava acostumado a conviver.
Sentou-se de maneira esparramada no banco, seguido logo do outro. Esse mal havia sentado e já fora recebendo afagos em seu cabelo loiro, mesmo que Aires soubesse que ele odiava isso.
- Lembro de você ter me dito que estava tendo sonhos ruins, mas você não especificou exatamente o quê.
Os olhos escuros de Touya se desviaram do olhar marrom do mais velho. Encarou o chão, como se a resposta estivesse lá.
- Não sei descrever. Normalmente eu esqueço. Às vezes eu apenas ignoro. Mas de alguma forma, alguém sempre morre. E sempre tem o cheiro de queimado...
- Queimado?
- Sim. – encarou o amigo por breves segundos – Sempre vem de mim.
As sobrancelhas de Aires levantaram-se diante dessa confissão, e foi ele quem desviou os olhos do amigo. Encarou toda a praça, e as pessoas que andavam na rua principal.
- Bem, esses sonhos são bem complexos, hein?
- Pois é. E os remédios não ajudam. Nem os médicos que eu vou, nem nada. Sem falar que eu não consigo dormir quando não sonho com essas coisas.
Aires voltou a encará-lo.
- Como assim?
Os olhos de Touya foram do chão ao céu. Esperou sua visão se acostumar e começar a perceber as nuvens se movendo – ou a Terra – para voltar a falar.
- O único momento em que eu posso realmente dormir é quando esses pesadelos vêm. Senão, eu tenho crises de insônia. É infernal.
- Entendi. – o outro se limitou a responder.
O silêncio então prevaleceu entre ambos e Touya sabia que nenhum dos dois conseguiria ter humor o bastante para voltar aos beijos de antes. Aires estava claramente desconfortável com aquela situação, entretanto continuava a brincar com alguns fios de cabelo loiro do amigo, sem nem perceber.
Pensou em algo para confortá-lo, e percebeu que suas opções eram escassas. Não havia como dizer palavras que fariam Touya se sentir melhor, apenas encontrar soluções que acabassem de vez com o problema. Por fim, algo lhe veio à mente.
- Hey, Touya, o que você acha de ir para minha casa ho–
No entanto, foi cortado quando o som de um carro freando bruscamente, seguido pelo grito de uma mulher, ecoou pela praça. Os dois jovens se assustaram, bem como as outras pessoas. E, antes que percebessem, já corriam para ver o que era.
7
Aires notou primeiro.
O aglomerado de pessoas era enorme e os cochichos já haviam denunciado o que ocorrera. Pôde então ver o homem caído no chão, a cabeça esmagada pelo carro, enquanto o motorista chorava e tentava se justificar.
- Ele apareceu de repente, eu juro! – gritou e olhou para o morto, perdendo o controle de seu estômago e vomitando perto dali.
Uma pessoa colocou a mão em seu ombro e disse que vira o que ocorrera – de repente, o homem jogara suas compras no chão, gritara uma negação e começou a correr, encontrando-se com o carro logo em seguida. Não que isso fosse ajudá-lo com a culpa, quando for dormir.
A namorada de Aires o notou, encarando para o mesmo acidente, em seu lado oposto, e correu para ele, abraçando seu braço e dizendo que queria ir embora. Em seus olhos, estava claro que não gostava daquela situação, assim como não queria mais procurar pelo presente ideal para quem quer que fosse.
E então Touya chegou.
Havia alguma coisa dentro dele que o impediu de correr atrás de Aires. Alguma coisa que dizia para não ir até lá, para ignorar o que estava acontecendo, para voltar para casa e depois falar com seu amigo. Essa sensação lhe causava arrepios na espinha, e ele quase seguiu seu conselho se seus olhos não tivesse se cruzado com outro, parado em uma das esquinas da rua principal.
Sem perceber, caminhara até lá, tentando enxergar o dono dos olhos que o prendiam. Para facilitar, aquele homem se aproximou um pouco, o olhar fixado em Touya, como uma cobra encarando sua presa.
Postou-se à sua frente, do outro lado da rua, e lhe acenou de maneira íntima, encostando seu corpo na parede de uma das lojas. Era um homem alto, atraente e charmoso, de olhos negros maliciosos e que usava uma roupa completamente negra. Possuía cabelos marrons claros, todo jogado para trás, com exceção de uma grande mecha, que parecia rebelar-se e permanecer em seu rosto. Mesmo assim, lhe caía muito bem.
E, por fim, havia o sorriso. Um sorriso indescritível, meio cínico, meio superior, meio pervertido, meio dissimulado, meio tudo junto – coisas boas e ruins. Touya teve a certeza de que poderia passar o resto de sua vida observando aquele sorriso e mesmo assim não conseguir uma resposta.
Quem sabe, disse a si mesmo, na minha morte eu não encontre a resposta? E não soube exatamente porque pensou aquilo, nem na razão exata para sentir um arrepio percorrendo sua espinha. O homem pareceu notar, porque riu baixo, quase que tímido.
Sentiu suas bochechas corarem de repente. Estava encarando um homem desconhecido com certo fascínio. E isso era desconfortável, sem falar em mal educado. Encarou por um momento a rua, porém nela havia o sangue do homem que pulara na frente do carro, e, diante de um embrulho no estômago, voltou a olhar para frente.
O olhar encontrou novamente o homem, que lhe deu um sorriso simpático, mostrando os dentes. Ele então o chamou com o dedo indicador, pedindo para que se aproximasse, para que pudessem conversar. Por um momento, um lampejo de algo parecido com esperança misturado com felicidade possuiu o corpo de Touya, e ele logo soube que era atração pura.
Aquela pessoa era tão bonita, e lhe encarava nos olhos e estava lhe dando uma chance para muitas, muitas coisas. Esqueceu-se dos ensinamentos que aprendera na infância
(crianças não podem falar com estranhos, ninguém pode falar com estranhos, muito menos aqueles que sorriem do jeito que ele sorri diante de um atropelamento grave e violento como aquele)
e deu um passo para frente, sem hesitar.
Porém, foi detido por uma mão que agarrou seu pulso de maneira forte. Quando se virou, assustado, seus olhos se encontraram com o de Aires e de sua namorada. E o amigo o encarava com severidade, da mesma maneira que se olha para uma criança que foi brincar na casa de um amigo e não avisou os pais. Touya mordeu o lábio inferior; havia se esquecido da presença do amigo, que estava muito mais lúcido e era muito mais realista.
O olhar de Aires então se virou para o homem à frente de Touya e, de severidade, foi para uma extrema frieza. O loiro então voltou seu olhar para seu antigo objeto de observação, e notou a expressão irritada e prepotente no rosto do homem. Sentiu-se, de repente, com medo pelo amigo.
Notando que estava sendo novamente observado por Touya, o homem tornou-se novamente convidativo e, porque não dizer, atencioso, e lhe sorriu, meneando a cabeça em uma despedida breve. Virou-se e, sem olhar para os lados ou para trás, foi embora. Quase imediatamente, a namorada de Aires perguntou baixinho quem era ele, mas nenhum dos dois soube responder, porque eles simplesmente não o conheciam.
Touya o observou partir sem nenhuma resistência, muito embora a mão em seu pulso continuasse forte. Não sentiu nenhum ímpeto de correr atrás dele, ou de argumentar com Aires sobre tê-lo parado.
Simplesmente porque tinha a impressão de que, de uma forma ou de outra, seus caminhos se cruzariam de novo.
Kapitel Zwei Ende
¹ – Feliz aniversário
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